sexta-feira, 23 de março de 2007

Despojos

Há uma constante nas novidades do dia-a-dia sobre a Câmara Municipal de Lisboa: por cada notícia de uma nova dívida há notícia de mais uma distribuição de benesses. Pelas notícias de ontem ficava a saber-se que as dívidas e dificuldades financeiras da Câmara também se vão abater sobre as instituições de apoio às crianças com SIDA. Por outro lado, tomou-se conhecimento de que um antigo chefe de gabinete de uma ex-vereadora acumulou durante vários meses, em 2005, as remunerações de avençado do gabinete da autarca com as remunerações de alto quadro de uma empresa municipal. O professor Vital Moreira interrogava-se há dias, na blogosfera, sobre o destino que levam os dinheiros do “município mais rico do País”. Uma parte considerável dá ideia que vai para o saque.
E talvez seja esse o motivo pelo qual, apesar da situação de naufrágio iminente, os autarcas de Lisboa se mantêm teimosamente agarrados às tábuas da jangada de poder: porque ainda restam algumas migalhas do bolo, porque a clientela assim o exige. Segundo algumas das últimas notícias, há organizações partidárias de freguesia instaladas por inteiro, com emprego, ordenado, emolumentos e direitos adquiridos, no aparelho da autarquia e das respectivas empresas.
Ao mesmo tempo, a Câmara vai ao fundo num mar de dívidas. E a actividade camarária vai entrando em progressiva paralisia por falta de dinheiro. Um dia, que não virá longe, a gestão do município da capital do País será a mera organização da fuga aos credores, entre os quais se contam as próprias juntas de freguesia, paralisadas pelas dívidas da Câmara. Lisboa vai parando todos os dias. Mas para lá da crise, há quem vá vivendo muito confortavelmente à conta dos despojos.


João Paulo Guerra
In Diário Económico, 23.03.2007

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